terça-feira, 10 de junho de 2025

Ler e interpretar

Quando vejo aquelas publicações “Não autorizo a meta a usar os meus dados blá blá blá. Copia e cola isto no teu mural para protegeres os teus dados” percebo como é que o populismo cresceu da forma como cresceu em Portugal.

E isto podia ser só uma piada sobre gente burra, não fosse haver uma ligação direta que remove o fator “piada”. Na era da informação e desinformação, uma grande parte da população não sabe distinguir o trigo do joio. Não têm capacidade interpretativa e não têm o mínimo critério na escolha das suas fontes de informação. As publicações de “copia e cola isto no teu mural” já existem há anos com vários formatos (“o Facebook vai passar a ser pago”, “as suas fotos serão propriedade do Facebook”, etc.), mas recentemente foi efetivamente noticiado que os nossos dados nas redes sociais iam começar a ser usados para melhorar a Inteligência Artificial. E nessa mesma notícia vinham instruções claras sobre o que fazer para impedir isso. Ora, as pessoas continuam a preferir acreditar no que um labrego no Facebook diz do que no que vem nas notícias. Preferem escolher a opção fácil e “óbvia” (copiar e colar um texto para que todos vejam) do que a que dá um bocadinho mais de trabalho e não mostra a ninguém o informados que estamos (ir às definições procurar o sítio onde dá para remover as autorizações não desejadas). E isto reflete-se nos votos. Preferem acreditar no histérico que grita aos sete ventos os ódios que eles partilham do que na informação que os vários canais transmitem diariamente. Mesmo que esse histérico já tenha dito dezenas de mentiras descaradas, mesmo que esse histérico se contradiga regularmente, mesmo que esse histérico tenha historial de não cumprir a sua palavra, mesmo que esse histérico diga coisas completamente fora do aceitável vindo de alguém com tanta responsabilidade no nosso país. O que interessa é que ele meta as culpas em alguém que seja fácil de odiar. É dito por aí que a melhor forma de se criar uma amizade é ambos terem ódios em comum, e isto só reforça essa teoria.

 

É mais cómodo concordar com uma mentira que nos favorece do que com uma verdade que nos prejudica.